Eita que tô conseguindo por para fora uma pá de coisa engasgada.
o Alvo agora são as ações afirmativas, por parte das minorias em geral.
A princípio, eu não me considero sexista, racista, homofóbico ou anti-sei lá o quê.
A questão principal é que fico bastante (incomodado? indignado? chateado? decepcionado? escolham a alternativa que quiserem, nem eu sei ao certo) com a forma com que as minorias expressam seu desejo de mais respeito (desejo esse que apóio em 100%, acho que todos devem ser igualmente respeitados e ter direitos iguais).
A questão é de forma. O discurso segmentário (não uso o termo "sectário" por estar carregado de conotações pejorativas) (segmentário, pois pende à segmentação do todo) peca exatamente por buscar a divisão da humanidade em grupos.
O resultado da divisão é que sempre ocorre a competição entre os grupos divididos.
Vejamos o caso feminino.
Quando as mulheres exigem o devido respeito (devido sim, porque o respeito à elas é um dever, e a conseqüência é tratá-las em pé de igualdade), em alguns casos a forma exagera, quando retrata que todas as mulheres são sensacionais e todos os homens são uns merdas.
Toda mulher é vítima de um homem tirano que a reprime. Existem casos assim, por óbvio.
Mas existem casos inversos, também. Conheci um homem que apanhava da mulher.
O caso é emblemático pois era público e, mesmo que não fosse, seria de fácil apreensão, pois o cara, magricelo, aparecia com hematomas no rosto e nos braços enquanto a esposa (que teve um problema hormonal e ficou grande e forte) só tinha lesões nas mãos. Sempre que ele aparecia com a cara quebrada, ela estava com a mão machucada.
Esse casal era amigo dos meus pais.
Mas não é só isso.
Lembrando que a educação das crianças, cada vez mais é uma tarefa feminina, pois com os pais separados vendo as crianças 2 dias a cada 15 e os genitores cada vez mais trabalhando mais e gastando mais tempo no trânsito, a diferença entre homens e mulheres pende a favor delas, que trabalham, normalmente, mais perto de casa; tem mais empregos de meio-período; ou escolhem trabalhar em casa; ou de qualquer modo, iniciando o processo de socialização da crianças através de creches onde trabalham prioritariamente mulheres, a criança é criada por mulheres, essencialmente.
Na minha geração de crianças, tínhamos isso bem claro: estávamos sendo ensinados para respeitar os direitos da mulher, compensando o erro das gerações anteriores (sou da geração chamada de X) criadas sob o machismo.
Aí, ao invés de tomar atitudes concretas para diminuir o problema nas próximas gerações, o discurso é culpar as atuais gerações por erros das passadas, sempre se colocando no papel de vítima, como se todas as crianças fossem criadas por homens, em centros de programação mental. Acho errado e isso, ao invés de contribuir efetivamente para a mudança, aumenta o desconforto da mensagem e termina por gerar mais reações negativas que efeitos positivos.
O caminho que eu acho certo é a valorização do ser humano, como um todo e não partes do imenso grupo humano, mas isto é antecipar conclusões.
A "questão racial", eu acho levemente mais complicada, pois há um nítido corte "racial" nas desigualdades sociais, mas não acredito que a política meramente "racial" vá impactar positivamente se for duradoura.
Não existe uma "raça" superior à outra, existem grupos humanos com bagagens genéticas diferenciadas que devem ser tratadas com igual respeito.
Se os "brancos" são mais suscetíveis à câncer de pele, os "negros" sofrem mais de outras doenças. E ninguém é melhor ou pior por causa disso.
Além do que, essa divisão do mundo em "brancos" e "negros" esbarra em alguns fatos:
1) mais de 20% da população mundial são de orientais ("amarelos"= chineses, japoneses, vietnamitas, coreanos, tailandeses, cambojanos, mianmenses e por aí vai);
2) outro tanto são de origem hindu (indiano, paquistaneses, ceilaneses - é esse o nome de quem nasce no Ceilão? );
3) de acordo com o conceito europeu de "branco" do século XIX, os povos árabes (aqui incluídos os judeus sefaraditas, mas não os akhenazi) não seriam brancos, então seria mais um tanto de não-"brancos"/não-"negros".
4) a população indígena e os povos malaios (que tem traços genéticos em comum), também não são "brancos" ou "negros".
Essa lista pequena já demonstra que mais ou menos uns 45% da população do planeta estariam fora da dicotomia "branco"/"negro", o que, entendo eu, já invalida essa divisão, pois uma categoria de divisão que deixa de fora um percentual dessa magnitude é uma categoria ineficaz.
Além do que, dividir a humanidade em raças sempre me pareceu uma coisa aberrante, bem típica do colonialismo europeu do século XIX.
Para mim, quem tem raça é cachorro. Ser humano tem etnia, conceito que engloba fatores culturais e religiosos.
Quem defendia a existência de raças eram os nazistas, por acreditarem na existência de uma raça superior (a deles).
Agora, ignorar que os afro-descendentes (não gosto muito desta denominação, mas é a mais aceitável dentre as opções) são marcados pela pobreza não dá.
O problema é que tentar resolver a desigualdade social pelo viés da "raça", acaba gerando um problema nitidamente racial (este racial está sem aspas, pois aqui é preconceito de raça mesmo).
Durante as décadas de 70 e 80 do século passado, o processo de concentração de renda levou muitas famílias à pobreza, situação que vem sendo revertida aos poucos, atualmente.
Assim, a pobreza mudou de cor, pois famílias de classe média baixa foram sendo empurradas à pobreza, algumas delas de euro-descendentes (gostaram do neologismo?).
Quando se busca retirar da pobreza apenas por questões de tom de cor da pele, qualquer que seja ela, o contingente que restar vai estar profundamente marcado pela exclusão baseada em cor de pele, em raça.
E esse sentimento de exclusão é que vai gerar os conflitos agudos, racialmente orientados.
O tom do discurso racial pró-"negros" é que os "negros" são superiores como raça, o que é um erro. Ao aceitar a divisão feita para oprimir e oprimir a individualidade embaixo de um rótulo baseado em cores de pele, esta defesa abre azo para a contestação dos méritos globais através dos defeitos individuais ("ah, a raça marrom é ruim, porque o fulaninho fez isso", "a raça negra é ruim porque o sicrano, negro, cometeu o crime tal", "a raça branca é ruim porque o beltrano jogou a filha pela janela") (parêntese do parêntese: só usei a expressão "raça", que abomino, para exemplificar argumentos porcos possibilitados pela união das pessoas em um rótulo racial).
Como disse Marx (Karl, não o Groucho, nem o Burle), A questão judaica.
A história e a cultura dos judeus são muito legais. Muito legais mesmo. Tenho em casa o livrão "A História dos Hebreus", que recomendo. É um livro escrito por Flávio Josefo, mais ou menos em 100 DC.
Mas os discursos pró-semitas sofrem do mesmo detalhe que os outros: a suposição de que exista um grupo humano, superior aos demais e que este grupo seja o resultado de uma divisão do todo através de um critério genérico (ser mulher, ser negro, ser judeu).
A história dos judeus é realmente muito interessante, mas daí a usar como prova da superioridade fatos como ser o povo escolhido por Deus; o fato de o Torá, quando escrito em hebraico, poder prever todos os acontecimentos do mundo; a cabala ser o supra sumo da sabedoria de todos os tempos.
Todos estes fatores, em conjunto com a reação referida na questão racial, acima, ocasionaram, ao longo da história, diversos massacres (polgroms) que massacraram a população judaica, ao longo dos tempos. Algo próximo com o que ocorre com a população dos curdos, também discriminados por questões culturais, hoje, no Iraque e na Turquia.
Não se diga que a população judaica teve culpa nisso, nunca teve. Os massacres são sempre fruto da junção entre ignorância e falta de escrúpulos. Ignorância da massa linchadora e falta de escrúpulos de quem comanda a massa.
A bandeira homossexual
De maneira similar, a reação a esse discurso, de modo físico e violento é muito mais fruto da ignorância do que de qualquer outra coisa.
O discurso gay, aqui entendido na declaração de superioridade de alguém por opção sexual, por outro lado, passa pelo ponto de todo mundo ser gay (aí se encaixam aquelas declarações de que tal figura histórica seria gay) e pela afirmativa de que quem não é gay, é um repressor homofóbico.
Novamente, a divisão da humanidade por um critério genérico (ser mulher, ser negro, ser judeu, ser gay) vai gerar mais violência derivada da ignorância.
Aqui, mais que em qualquer outra minoria auto-caracterizada, é visível o lado emocional da discussão, afastando-se o meio termo (que seria, e nesse caso é possível, o bissexual).
A divisão etária.
Com a glorificação mercadológica da juventude, o resultado é a criação de um discurso de auto-apoio para os mais vividos.
E vemos slogans como "melhor idade" substituindo "terceira idade", de novo insistindo no erro de atribuir qualidades através do conceito genérico.
O discurso do homem branco heterosexual.
Devido a ressugência das minorias, todas elas apontando como maioria este ser, 0 hbh, não é de se espantar que tenha surgido um discurso segmentário que defenda a superioridade do hbh, devido a pretensas qualidades como iniciativa, força, inteligência.
Do mesmo modo que as demais, peca por criar um critério genérico de divisão. E, com uma dose de razão, é acusado de preconceito pelas demais.
Um exemplo deste tipo de discurso e da maleabilidade desse grupo, é o uso do termo "espada" para se definir (como se vê em "Eu sou Espada"), usado também por homens jovens negros, assim como a variante "facão" (pois tal instrumento de corte tem fio apenas para um lado) para se extremar dos bissexuais (que "cortariam dos dois lados", como as "giletes").
Algumas outras minorias poderiam ser abordadas, como os católicos, os evangélicos, mas acho que a opinião central já foi expressa que é a negação a toda tentativa de um grupo, qualquer que seja, afirmar sua superiodade frente a outros.
Não se nega, aqui, a possibilidade estatística de divisão numérica da população de um território específico. O que se busca afastar é a atribuição automática de determinado efeito, defeito ou qualidade aos participantes de uma categoria pelo só fato de participar desta categoria.
Não é pelo fato de ser mulher que a pessoa vai ser (esperta? inteligente? honesta? infiel? mentirosa? bonita? feia? escolham a generalização errada que preferirem).
Como também não é pelo de ser (mulher? negro? judeu? gay? idoso? jovem? branco? desempregado?) que o indivíduo não será (gordo? magro? alto? baixo? corrupto? honesto? filho-da-puta? criminoso? não-criminoso? escolham à vontade, não faz diferença).
O erro deste raciocínio não está no resultado, está no processo.
A única coisa garantida é que 100% dos participantes do grupo serão participantes do grupo. Ponto.
Assim, 100% dos gays serão gays, 100% dos idosos serão idosos e para nisso. Não se pode dizer que 100% dos gays serão altos, que 100% dos negros terão alguma habilidade especial e comum a todos, que 100% dos idosos estarão com boa saúde.
Tenho algumas coisas a falar sobre os discursos do ódio (hate speechs), que fica para depois, mas gostaria de adiantar que vejo eles como o outro lado desta moeda chamada discurso de auto-valorização (que é do que temos tratado aqui).
Não importa a conexão com a realidade e, sim, o atendimento de um outro propósito, que é o de levantar a auto-estima do público a que é dirigido.
Neste ponto, tanto o discurso do ódio quanto o discurso de auto-valorização são convergentes. Afastam-se da realidade para delírio da platéia.
Depois eu volto a este assunto.
Para terminar, uma autoclassificação:
Por acidente, o espermatozóide que fecundou o óvulo de mamãe tinha o cromossomo Y. Nasci menino (foi o que a obstreta disse: "é um menino"). Tivesse nascido menina, o acidente seria o mesmo.
Sou mestiço (nem branco nem negro), muito embora minha mãe guarde bastante itens da herança genética européia dela. Herança financeira, que é bom, necas.
Na adolescência, meu órgão genital mostrou interesse por meninas e continua assim. Não nutro esperanças sobre o futuro dessa escolha e do resultado dela, apenas que continue sendo exercida, sem viagra, por muito tempo e outro tempo depois, com viagra.
Não falo sobre minha religião ou a falta dela (minha religião não permite), mas acho que se os outros quiserem me prestar o dízimo bílbico, eu aceito. O problema é depois declarar no IR.
Estou na meia-idade, pois já deixei de ser jovem (ainda que há pouco tempo) e ainda não sou idoso, o que espero vir a ser, pois a alternativa não é boa.
Sou Humanitista: Ao vencedor, as batatas, pois acho que o humanitismo é a teoria do caos aplicado às ciências sociais.
Quando
humanitas tem fome, as guerras logo aparecem como opção. Quanto maior é a fome, mais breve é a guerra.
Quando humanitas tem pressa, morrem milhares no trânsito.
Quando humanitas tem desejo sexual, todos viram objetos sexuais ou sexualizáveis.
Por aí vai.
Fui, que hoje já falei demais.
Me sinto até aliviado.